Como Redescobri o Prazer de Ouvir Músicas

Para começo de conversa...
  -
Você sabia?

Como medir sua audição?
  - O que o ouvido humano ouve
  - Faça uma Audiometria

  - CDs especiais de teste

A minha experiência
  - Minha história

  - Na vida prática...

  - O que teria causado?

  - Comunidade no Orkut

Como melhorei o prazer 200%
  - No micro: ajustei os controles
  - O fantástico "Crescendo"

  - No som de casa: equalizador 

  - Em portáteis: miniequalizador

  - Na rua: aparelho auditivo

  - Nas boates: plugs de ouvido

  - Treinando: exercícios auditivos

Qual deles você usa?
  - Windows Media Player

  - Winamp
  - Sonique

  - Comparando equalizadores

  - Como equalizar?

Considerações diversas

  - Considerações diversas

Lições disso tudo
 
- As pessoas são mesmo diferentes!

  - Cuide dos seus ouvidos enquanto é tempo!

Enquanto isso...
 
- Por que não se aprende nada sobre isso nas escolas?

  - Por que as Leis não regulamentam?

Curiosidades
  - Músicas são um vício?

  - O prazer não auditivo das baixas freqüências...

  - O prazer não auditivo das altíssimas freqüências...

  - "Altura" x "Intensidade"

  - Ajuste em 4 kHz e...

  - O nível sonoro nas boates de Brasília

Outros
  - Links / sites relacionados

  - Versão parcial em inglês

  - Entre em contato comigo!

Resolvi fazer este site depois que descobri 3 coisas:

  1. Eu tinha uma deficiência auditiva significativa, e não sabia...

  2. Eu havia perdido quase todo o prazer de ouvir músicas...

  3. Ainda era possível voltar a ouvir músicas com o mesmo prazer de antigamente!

Sei que há muitas pessoas com problema auditivo similar ao meu.

Uma delas pode ser você, ou um amigo ou familiar seu...  

Pessoas com uma deficiência auditiva que atinge apenas algumas freqüências específicas... a gente ouve bem boa parte dos sons, então acha que está tudo bem, e nem nos lembramos mais de como ouvíamos melhor antigamente... 

Deficiências auditivas como a minha, geralmente causadas por exposição excessiva a ruídos intensos (inclusive boates, etc), são cada vez mais comuns, pois a gente muitas vezes acaba detonando nossos ouvidos com boates, shows, fones de ouvido altos, e até com alguns tipos de remédios. Se a perda é aos poucos, como muitas vezes ocorre, você nem sempre se toca... nem temos noção do quanto estamos perdendo... e do quanto podemos recuperar.

Tem muita coisa interessante aqui! 

  • Por exemplo, você sabia que existem "plugs" de ouvido específicos para se usar em boates, shows, etc, que diminuem o volume mas não comprometem a qualidade das músicas? 

  • Sabia que os diversos programas de reprodução de MP3 (Media Player, Winamp, etc) são bem diferentes entre si quanto aos seus recursos para ajustar o som, especialmente para ajustar para pessoas que tem algum grau de deficiência auditiva? 

  • Sabia que, dependendo do seu problema, um único aparelho auditivo digital, totalmente dentro do seu ouvido, faz verdadeiros milagres, e pode te fazer voltar a ouvir coisas que todo mundo "normal" ouve, mas quem tem deficiência nem sabe que poderia ouvir e nem sabe que está perdendo?

  • Sabia que pessoas com deficiência auditiva muitas vezes têm uma intolerância maior a sons altos do que as pessoas normais têm? Isso é devido a um fenômeno chamado "recrutamento". É como se você enxergasse menos no escuro e ao mesmo tempo ficasse bem mais ofuscado que os outros num local muito claro. O recrutamento, entre outras coisas, pode dar às pessoas com deficiência a falsa impressão de que ouvem "a mais", pois, se incomodam mais que os outros com um som muito alto...  

  • Sabia que, independentemente de você ter uma audição perfeita ou algum grau de deficiência auditiva, o nível de som alto que causa dor é muito maior que o nível de som que causa danos? Ao contrário do que acontece com outras partes do seu corpo, você não pode confiar na dor para perceber que ultrapassou o limite. Quanto os teus ouvidos doem em um show ao ar livre, numa casa noturna, etc, é porque "a coisa já ficou preta" há muito tempo! 

 

Quanto você ouve? Como medir?

1) O ouvido humano normal ouve entre 20 Hz e 20.000 Hz.

Na prática, as freqüências acima de 1000 hz a gente coloca em kHz, tirando portanto três zeros, então temos:

A audiometria convencional mede uma parte disso, a parte mais importante "socialmente":

2) Para medir como anda sua audição e seu aparelho auditivo, o ideal é você fazer uma audiometria com um profissional especializado.

  • Obs: como você pode ver comparando as barrinhas azuis, embora o ouvido humano ouça teoricamente até 20 kHz, e as pessoas ouçam com facilidade até 16 ou 17 kHz, os exames auditivos só testam a audição até 8 kHz. Isso porque essa faixa - até os 8 kHz - é que é considerada importante no dia a dia.
    O "mundo sonoro" entre 8 kHz e 20 kHz é, porém, menor do que parece. Numericamente, esta faixa parece  ser mais da metade do espectro auditivo (afinal, entre 20 e 20.000, o "meio" seria teoricamente ao redor de 10.000, ou seja, 10 kHz). Porém, musicalmente falando, esta faixa corresponde apenas a pouco mais de uma "oitava".
    Mesmo sendo musicalmente menor do que parece à primeira vista, a faixa acima dos 8 kHz é ainda muito importante ao se ouvir músicas.

3) Existem CDs especiais para você testar seu som e seus ouvidos. Tenho dois deles.

  • em um deles, cada "música" (faixa) é um sinal contínuo numa certa freqüência... quando eu o coloco para amigos ouvirem, vejo por exemplo que pessoas normais conseguem ouvir até a faixa de 16 kHz ou a de 17 kHz, sem problemas. Já eu, a partir de 12 kHz, não ouço nada!

  • o outro CD, chamado "Audio-CD", que comprei pelo site www.digital-recordings.com , permite que você faça sua própria audiometria "completa" (de 20 Hz a 20 kHz), caso você tenha um fone de ouvido de alta qualidade e siga corretamente as instruções

  • Claro que a audiometria do CD é "completa" do ponto de vista da audição das freqüências sonoras por via aérea, mas claro que não se compara com uma audiometria feita por um profissional, que testa condutividade aérea e óssea, impedanciometria, etc. O CD é interessante para você testar sua audição de 20 Hz a 250 Hz e de 8 KHz a 20 kHz (as faixas não cobertas pela audiometria convencional), mas nada substitui o exame de um profissional!

 

A Minha História...

Já faz muitos anos que sei que tenho uma certa deficiência auditiva. Já no II grau me chamavam de "surdinho" às vezes, e lembro que audiometrias que fiz quando mais jovem acusavam uma certa perda na audição de agudos. Pena que perdi meus exames mais antigos... só tenho os de 2001 para cá.

De qualquer forma, minha perda seria do tipo "neurossensorial", ou seja, do tipo que afeta o nervo e/ou as células auditivas do ouvido interno. A causa original? Provavelmente a caxumba que tive aos 7 anos. Provavelmente piorada depois, ao longo dos anos, por excesso de exposição a sons altos (fones de ouvidos, boates, etc).  Ou seja, acabei desenvolvendo a chamada PAIR - Perda Auditiva Induzida por Ruído.

Até ano passado, a deficiência pouco me afetava na prática. Eu tinha uma certa dificuldade de entender letras de músicas, especialmente letras em inglês, e tinha também uma certa dificuldade com o inglês falado - simplesmente por confundir/não diferenciar certos tipos de sons.

Meu problema piorou a partir de começo de 2003. Não sei se foi uma perda rápida e progressiva ou se foi uma perda de um dia para o outro, num dia em que "exagerei" numa festa ou numa boate. Mas o fato é que no começo do ano reparei que eu não tinha mais prazer de ouvir músicas! Pensei que fosse algo psicológico, relacionado a depressão. Mas o prazer musical não voltava. Aí um dia, conversando casualmente com uma colega daqui do trabalho, ela me disse que após usar aparelho auditivo o seu prazer de ouvir músicas havia voltado em parte.

Isso me fez pesquisar... e descobri um programa de ouvir músicas MP3 que tinha um equalizador de 20 bandas (ver explicação mais abaixo). Ajustando os controles do equalizador, consegui deixar as músicas novamente gostosas de ouvir. Consegui novamente ouvir músicas como eu ouvia antes! Descobri que a perda de prazer musical não era psicológica, era física!

Resolvi fazer testes com um aparelho auditivo no ouvido esquerdo. E assim descobri que a minha perda era muito maior do que eu pensava! Por exemplo, nunca imaginei que houvesse tantos passarinhos junto da garagem da minha casa! Sem aparelho, não ouço passarinhos. Basta botar o aparelho... e aparecem os passarinhos! E, me comparando com minha mãe e meu irmão, descobri que mesmo com o aparelho ainda ouço menos que eles (se a gente vai entrando junto para o centro da casa, eu paro de conseguir ouvir os passarinhos antes deles).  

Ou seja, eu era bem mais "surdinho" do que eu imaginava...

 

Qual é o meu problema?      

A perda auditiva se divide em leve, moderada, grave e severa. Minha perda, como você pode ver abaixo, é "moderada" na maioria das freqüências entre 2 e 8 kHz, e é quase "grave" na faixa de 6 kHz (obs: a linha verde corresponde ao meu ouvido direito e a linha azul ao meu ouvido esquerdo).

 

Na prática:

1) Uma deficiência auditiva como a minha afeta bem mais alguns tipos específicos de sons. As coisas que mais deixo de ouvir são:

- o cantar de passarinhos

- o cantar de cigarras, grilos, etc

- o ruído "suave" da água em fontes, chafarizes, ou durante uma chuva

- o som de um celular tocando...

2) Para voz humana, minha deficiência faz relativamente pouca diferença. Tenho dificuldade mais com algumas consoantes.

É como diz o site www.earinfo.com : "você perderá algumas palavras por não conseguir ouvir os 's', 'z', 'th', 'v', e outras consoantes de alta freqüência".

 

Fonte: www.earinfo.com

3) Intolerância aos agudos: 

Eu tenho uma tolerância menor que a das pessoas normais a sons agudos altos! Parece paradoxal, não? Mas é um fenômeno comum em pessoas com deficiência auditiva como a minha. Tem a ver com algo chamado "recrutamento". É como se uma pessoa tivesse dificuldade de ver no escuro e ao mesmo tempo tivesse mais dificuldade que os outros no sol forte. É por isso que, em boates, eu geralmente me incomodo mais com som alto do que as outras pessoas...

 

O que poderia ter feito minha perda auditiva se acentuar mais ainda de começo de 2003 para cá?

1) Medicamento ototóxico

Alguns medicamentos, como a aspirina e alguns antibióticos, podem causar danos ao aparelho auditivo. Um medicamento que usei em 2003, o antibiótico Amoxicilina, pode ter sido o culpado.

Agora leio a parte de efeitos colaterais da bula de todos os medicamentos que tomo, para jamais tomar algum medicamento ototóxico.

Veja uma lista de medicamentos ototóxicos aqui.

2) Lesão auditiva ao longo de vários dias

Talvez o fato de eu ir com freqüência a festas e boates tenha me afetado progressivamente. Ou talvez o fato de eu ouvir música com headphones em volume alto.

            Aliás, descobri por que sempre tive necessidade psicológica de ouvir músicas em volume alto: quanto mais alto eu ouço, mais rica e menos abafada me parece a música! É como se meu cérebro, se tivesse uma certa quantidade mínima de agudos, conseguisse ajustar o som e me fazer "ouvir" uma música quase normal...

3) Lesão auditiva num único dia

Pode ser que um único dia de exposição sonora mais intensa tenha causado, de uma vez só, minha piora.  

Comunidade no Orkut      

Criei no Orkut a comunidade "perda auditiva parcial". Se você está no site e se identifica com o problema, associe-se a ela. No momento em que escrevo, sou ainda o único associado. Pudera: ainda que certamente haja inúmeras pessoas com problemas auditivos no site, a maioria não se percebe como tal (exceto aqueles com deficiência grave), e nem lhes ocorre procurar alguma comunidade relacionada...


Faz muita diferença!

        O único lado bom da deficiência auditiva é que, ao contrário por exemplo do que ocorre quando se está com depressão, é fácil provar que se tem mesmo o problema (através dos exames de Audiometria) e há até como mostrar aos outros o que sentimos!

        Minha deficiência é na faixa sonora acima de 2kHz. Pois bem: experimentei gravar algumas músicas cortando completamente as freqüências acima de 2 kHz.

        Qualquer um que ouça uma músicas sem a parte "acima de 2 kHz" passa a entender melhor como uma deficiência como a minha faz diferença.  As músicas ficam totalmente abafadas, mortas e sem vida! Todas as pessoas "normais" que testei concordaram que, sem ouvir os agudos, o prazer de ouvir músicas vai totalmente embora!

  • pretendo colocar aqui, para você ouvir e comprovar, o teste das músicas gravadas com e sem as freqüências acima de 2 kHz. Preciso apenas encontrar músicas que eu possa colocar sem ferir direitos autorais...

 


Como melhorei o prazer de ouvir músicas em mais de 200%!

  • Para ouvir músicas no micro, eu arranjei um programa com equalizador melhor (Sonique) e consegui fazer um ajuste fino da equalização. Depois, melhorei ainda mais os resultados com o uso do fantástico programa "Crescendo",  uma "tecnologia de restauração da audição musical";

  • Para ouvir no meu som "normal" de casa (inclusive rádios FM, minidiscs, fita K-7 e vinis antigos, etc) acrescentei um equalizador "de verdade" (ou seja, um aparelho modular separado); 

  • Para ouvir música caminhando, em aparelhos portáteis de MP3, de minidisc, etc, adquiri um miniequalizador  portátil para fones de ouvido;

  • Para ouvir "sons soltos" na rua comprei um minúsculo aparelho auditivo digital;

  • E para continuar curtindo as boates, sem me incomodar com a altura do som e sem detonar ainda mais os meus ouvidos, comprei plugs de ouvido especialmente feitos para quem quer curtir sem risco locais com som alto.


1) consegui novos programas para ouvir música no micro
, com equalizadores muito melhores (veja seção específica mais adiante).

  • O que é um equalizador?

        A maioria dos aparelhos de som, especialmente os de carro, têm apenas dois controles: "agudos" (treble) e "graves" (bass). O controle de agudos mexe em todas as freqüências de sons agudos, o que para mim ajuda pouco, pois tenho perdas diferentes em cada freqüência. 

Um equalizador, ao invés de só 2 controles, tem vários - os mais comuns são os de 5, os de 7, os de 10 e os de 31 controles. Um equalizador de 10 controles, ou "bandas",  "divide" o som em 10 pedaços para efeitos de ajustes... Isso me permite, por exemplo, ajustar bastante na faixa de 4 kHz - que eu ouço bem pouco - sem mexer tanto na faixa de 8 kHz - que eu ouço bem melhor.

        O equalizador do Winamp (que eu usava até então) era muito ruim, pois cada tecla mexia um pouco na freqüência das outras teclas, e eu não conseguia ajustar bem os sons agudos.

        Pesquisando, descobri que outro programa, o "Sonique", tinha um equalizador de 20 bandas, que permitia fazer um ajuste mais fino (inclusive porque tinha 20, e não apenas 10 teclas para ajustar o som). Este ajuste fino se revelou bem mais eficiente.

2) passei a usar o fantástico programa "Crescendo":

        David McClain desenvolveu o Crescendo, uma tecnologia de "restauração da audição musical". Ela usa equalização compressiva e não apresenta certas limitações dos aparelhos auditivos (os quais são feitos para se compreender a voz humana e sons normais do dia a dia, e não para se ouvir música). 

É como se o Crescendo "remixasse" a música, trazendo de volta alguns sons perdidos por causa da deficiência auditiva, e deixando mais ricos os outros sons que eu já ouvia.

Inicialmente, me foi fornecida gratuitamente uma versão "demo" simplificada do Crescendo. Ela roda como "plug-in" no Windows Media Player (infelizmente não existe versão para o Winamp ou para o Sonique). Depois, acabei comprando o programa na sua versão "Pro", que roda num "digital sound processor" Chameleon (e portanto pode agir sobre som de outras fontes e não apenas sobre arquivos de som).

É interessante notar que, se eu ouço uma música com "Crescendo" por apenas alguns segundos, ele parece não alterar tanto a música, especialmente se forem músicas de gêneros como "Pop" e "Dance". (com alguns estilos, como orquestras com muita riqueza de instrumentos, o efeito é perceptível de forma bem mais rápida). Porém, mesmo com estilos como Pop/ Rock e Dance, o Crescendo muda completamente a forma como meu cérebro reage à música. É uma diferença que leva vários segundos para se tornar evidente, mas surpreende. Uma diferença não tão grande no "ouvir", mas que faz muita diferença no "sentir".

Imagine que você está lendo algum tipo de texto pessoal... uma poesia ou um conto...
- primeiro, você lê o texto escrito em papel branco, com fonte “Courier New”. Você consegue ler todas as palavras, mas o texto não diz tanto ao teu "coração"...
- você então troca a fonte, a cor da fonte, a cor de fundo, adiciona talvez algumas ilustrações em volta do texto... E você lê novamente o mesmo texto, e percebe que agora você se sente "dentro" da história... Esta é a melhor comparação que consigo imaginar para explicar o que o Crescendo faz com a música.

O único “problema” com o Crescendo é que, para pessoas normais, ele parece alterar as músicas muito mais do que uma equalização normal faria. Pessoas normais conseguem se acostumar rapidamente a uma equalização moderada. Mas músicas reproduzidas com "Crescendo" lhes parecem como uma mixagem diferente, e meio estranha, dos sons originais.

Por isso, quando eu vou mostrar meu acervo de músicas para um(a) amigo(a), eu tenho que desligar o Crescendo e usar apenas um equalizador normal. Assim, a música ainda parece normal para a pessoa, e ao mesmo tempo não me parece tão abafada quanto ficaria "sem nada". Mas para ouvir sozinho, sempre uso o Crescendo...

Visite o link e leia mais sobre o Crescendo. 

3) comprei um equalizador "de verdade" para meu som "normal"

Para ouvir no meu som "normal", fora do computador, ou seja, para ouvir rádios FM, minidiscs, discos de vinil e fitas k-7 antigas, comprei um equalizador. 

Há vários modelos usados à venda no site mercadolivre.com.br 

O aparelho que comprei, um pouco menor que um CD player comum, tem 31 bandas por canal. Ou seja, é um aparelho que divide o som em 31 "pedacinhos", e que além disso permite fazer um ajuste para o lado esquerdo e outro para o lado direito. Esta separação direito/esquerdo seria desejável no meu caso, pois a perda que tenho em cada ouvido não é exatamente igual.

Comprei depois outro equalizador, um GR-777 usado. Este tinha 10 bandas por canal, e se  revelou muito bom, e bem mais fácil de ajustar do que o de 31 bandas.

Eu recomendaria a compra de um equalizador de 10 bandas por canal, já que a opção imediatamente abaixo - 7 bandas - me parece ter precisão insuficiente e a opção imediatamente acima - aparelho de 15 bandas - já começa a ser difícil de ajustar. Além das 10 bandas, acho importante que o aparelho tenha possibilidade de memorizar alguns ajustes definidos pelo usuário. O meu GR-777 memoriza 5 ajustes diferentes, o que facilita muito a comparação entre um ajuste e outro.

4) comprei um pequeno acessório para fones de ouvido

É um equalizador portátil, da marca Koss, que uso para caminhar ouvindo música num aparelho portátil comum (discman, mp3 player, etc). 

O mini-equalizador tem apenas 3 bandas ("graves", "médios" e "agudos") e portanto não permite um ajuste ideal. Mesmo assim, é muito melhor que nada para usar em aparelhos portáteis que nem ajuste de graves e agudos têm...

Tenha cuidado ao usar equalizadores, especialmente em volumes mais elevados! Eu os uso para níveis de volume moderados - na faixa de no máximo uns 80 a 85 db, o que significa que mesmo as freqüências realçadas estarão dentro de níveis seguros. Lembre-se que se você usar equalizadores ouvindo música em volume elevado, as freqüências realçadas - exatamente aquelas nas quais você tem deficiência - atingirão níveis perigosos, e a "solução" acabará  piorando seu problema!

5) comprei uma aparelho auditivo digital de última geração

Este aparelho mudou completamente a minha capacidade de ouvir certos tipos de sons. E a minha sorte é que meu tipo de deficiência auditiva me permite usar um aparelho "intra-canal", que como o nome diz fica todo dentro do ouvido - é extremamente discreto.

Eu não o uso para ouvir música em casa (por motivos que explico mais adiante), mas para ouvir músicas dentro do carro, ou mesmo na casa de amigos, a diferença é enorme! E o efeito é ainda melhor ao ouvir "sons da natureza" (pássaros, grilos, chuva, etc) ao ar livre...

Obs: Os aparelhos auditivos só agem até 8 kHz. Na faixa acima disso, além de não amplificarem, ainda agem como tampão... Ou seja, mesmo que eu colocasse dois aparelhos auditivos de primeira linha, um em cada ouvido, ainda assim a audição musical não ficaria perfeita, não ficaria "Hi-Fi", pois eu deixaria de ouvir os sons de 9 kHz em diante. Para ouvir músicas em casa, no meu caso pelo menos, o melhor resultado é com um equalizador bem ajustado, e não com um aparelho auditivo.

  • Para mais detalhes sobre aparelhos auditivos, clique aqui !

6) comprei plugs de ouvido especiais

No site SonicShop você encontra plugs de ouvido (ou "ear pads") para os mais diversos usos e fins (inclusive para dormir). Infelizmente o site não vende para o Brasil - pedi para uma amiga que mora nos EUA comprar e enviar os plugs para mim.

Há modelos feitos especificamente para se ouvir com qualidade em ambientes com música alta, ou, como dizem eles, feitos especialmente para "Party People" e para "Musicians": o Music Safe II e o UltraTech

Este site vende também o "PocketEar", um curioso "alarme sonoro de bolso", que avisa quando determinado nível sonoro foi ultrapassado.

O site Ear Plug Super Store tem também inúmeros modelos, e envia para o Brasil. Um bom modelo seria o ER-20. Já o topo de linha, para quem se dispõe a gastar mais para ter o melhor, seriam os filtros ER-9/ER-25. Eles são montados em moldes personalizados para o canal auditivo de cada pessoa.

Para saber mais sobre como proteger seus ouvidos, sugiro ler este texto: http://planeta.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/audicao.html

7exercícios auditivos 

Descobri, casualmente, o que eu poderia chamar de "exercício auditivo" ou "exercício de calibração auditiva". Parece funcionar comigo, mas não sei se funcionaria com outras pessoas.

Consiste no seguinte: eu ajusto um equalizador (de micro ou de mesa) para reduzir completamente as freqüências agudas. Ouço a música por alguns segundos, e desligo a equalização, voltando a ouvir música "normal". Como meus ouvidos se acostumaram um pouco ao som abafado, o som parece inicialmente muito mais rico e cheio de agudos. Em poucos segundos o ouvido se "reacostuma" ao som normal, e de novo eu ativo o equalizador, cortando os agudos. Repito este processo algumas dezenas de vezes : som abafado por uns 5 a 10 segundos - som normal por uns 5 a 10 segundos. Parece-me que no final meu ouvido fica percebendo melhor os agudos das músicas. Numa escala hipotética:
- minha percepção subjetiva dos agudos antes dos exercícios é, digamos, "5"
- minha percepção subjetiva dos agudos logo que passo do som abafado para o som normal é "10" (maior e bem mais agradável), mas em poucos segundos vai voltando para o "5", à medida em que meus ouvidos se reacostumam com o som normal
- após várias vezes repetindo este processo, minha percepção subjetiva permanece começando no "10" mas já não cai até o 5, e sim apenas até o "8". 

Em suma, após uns 5 minutos com este exercício, minha percepção "contínua" dos agudos parece aumentar, e ouvir música normal (sem equalização) parece ficar mais agradável!


8
) ajustei também os graves

Recentemente descobri que tenho uma perda auditiva também na faixa dos graves mais baixos - um pequeno ajuste no controle de 32 Hz do equalizador faz uma razoável diferença para mim, quando ouço músicas! Esta perda, que me parece que eu teria adquirido de 2002 ou 2003 para cá, nunca seria detectada numa audiometria normal - que mede apenas a partir de 250 Hz... 

9) continuei seguindo dicas básicas sobre som

São dicas super úteis tanto para quem tem a audição perfeita quanto para quem tem um problema similar ao meu.

Veja as dicas aqui

 

Qual programa você usa no seu micro?

1) Windows Media Player 

O Windows Media Player tem um equalizador de 10 faixas.

Sua grande desvantagem é que permite ao usuário salvar uma única configuração personalizada, enquanto o Winamp permite salvar quantas quiser e o Sonique permite salvar 8. Por isso mesmo, escrevi para a Microsoft sugerindo que futuras versões não tenham esta deficiência.

Para ativar o equalizador, vá no menu "exibir", escolha "aprimoramentos" e depois clique em "equalizador gráfico". Quanto aos "efeitos SRS WOW", sugiro que você os deixe desativados, pelo menos até escolher a configuração mais adequada do equalizador. 

2) Winamp 

O Winamp tem também um equalizador de 10 faixas. 

O problema é que o equalizador das versões 2.x é muito ruim. Os controles são muito pouco precisos, ou seja, um botão interfere bastante nas faixas dos controles adjacentes, e fica impossível fazer um ajuste razoável.

O equalizador do novo Winamp 5 é muito melhor e mais preciso do que o da versão 2.

Existe um plugin gratuito para o Winamp que permite ter um equalizador de 10 faixas por canal (ou seja, lados direito e esquerdo separados). Porém, ainda não o testei.

3) Sonique 

O Sonique tem, na minha opinião, o melhor equalizador de todos, com 20 bandas. É possível fazer ajustes bem finos. 

Outra grande vantagem é a possibilidade de se alternar rapidamente entre 8 settings personalizados... isso torna muito mais fácil comparar entre diversos settings que você tenha feito

É o que eu usava e recomendo para quem tem deficiência auditiva semelhante à minha. Portanto:

1ª opção: Sonique 1.96

2ª opção: Windows Media Player ou Winamp 5

Não recomendado: Winamp 2.x

Atualmente voltei a usar o Windows Media Player, por ser o único para o qual existe um "plug-in" do software Crescendo.

 

Como equalizar? 

Não creio que haja uma fórmula fácil para determinar a equalização ideal. Eu encontrei os ajustes de equalização mais agradáveis para os meus ouvidos por tentativa e erro. Cada vez que eu encontrava uma equalização mais agradável, salvava o ajuste correspondente, e no final comparava os melhores ajustes.

O interessante é que os ajustes de equalização que me parecem mais agradáveis não correspondem exatamente ao que seria de se esperar pela minha deficiência: minhas audiometrias indicam uma deficiência mais intensa entre 4 kHz e 6 kHz; porém, para que uma música me pareça normal e gostosa, eu tenho necessidade de aumentar principalmente as freqüências entre 2 kHz e 4 kHz, e num nível muito menor que o da minha perda.

  • novamente lembro: tenha cuidado ao usar equalizadores, especialmente em volumes mais elevados! Eu os uso para níveis de volume moderados - na faixa de no máximo uns 80 a 85 db, o que significa que mesmo as freqüências realçadas estarão dentro de níveis seguros. Lembre-se que se você usar equalizadores ouvindo música em volume elevado, as freqüências realçadas - exatamente aquelas nas quais você tem deficiência - atingirão níveis perigosos, e a "solução" acabará  piorando seu problema!

  • independente de qual programa você use, lembre-se que (1) a equalização mais adequada para ouvir com caixas pode não ser a mais adequada para ouvir com fones de ouvido; (2) músicas diferentes podem pedir equalizações um pouco diferentes.

  • em uma outra página explico um método que desenvolvi para gerar uma arquivo wav de teste, com diversas freqüências sonoras, e com ele testar os efeitos de equalizadores e de controles de graves e agudos. 





Considerações Diversas...

  • Diferentes músicas, especialmente de gêneros como pop/rock e dance/trance (que conheço melhor) têm equalizações diferente entre elas. (eu me refiro à equalização aplicada quando a música é masterizada / mixada, e que será notada mesmo quando você a ouvir com todos os controles na posição neutra). Para pessoas com audição normal, estas diferenças entre as músicas cairiam dentro da faixa na qual seus ouvidos / seu cérebro conseguem facilmente se adaptar. Já para alguém como eu, com uma perda de moderada para severa, estas diferenças ficariam acima da capacidade de acomodação. 
          Portanto,  haverá ajustes de equalização "ideais" diferentes para músicas diferentes. Há, inclusive, algumas músicas para as quais eu mesmo não sinto praticamente necessidade de equalização...
          Pergunto-me se, quando uma pessoa começa a ter perda auditiva neuro-sensorial, ela não percebe de início apenas uma "mudança" nas suas preferências musicais. Algumas músicas que antes pareciam bastante agradáveis pareceriam já não tão interessantes, e as músicas favoritas talvez se tornem aquelas cuja "pré-equalização" é o inverso da perda auditiva da pessoa. 
          Por exemplo, músicas que foram já masterizadas com um aumento na faixa de 2 a 8 kHz começariam a parecer, proporcionalmente, mais interessantes para quem está adquirindo uma perda nesta faixa. Apenas quando a perda se tornasse realmente importante, e mesmo estas músicas parecessem abafadas, é que a pessoa afetada perceberia que há algo errado na sua audição - mas aí já seria tarde demais... 

  • Parece-me que minha audição tem pequenas oscilações de alguns decibéis de um dia para outro. Creio que uma pessoa normal talvez tenha também estas oscilações... A diferença é que para uma pessoa normal, +3db ou -3 db numa determinada freqüência seria algo provavelmente pouco ou nada perceptível, mas para uma pessoa como eu, com uma perda na faixa dos 60 db, uma perda de 57 db pareceria de fato diferente de uma perda de 63 db. Portanto, um determinado ajuste - num aparelho auditivo ou no equalizador de um equipamento de som - que pareça ser o ajuste ideal em um dia pode não parecer tão adequado em outro dia... 

  • Eu queria descobrir o que eu estava perdendo por causa da minha deficiência profunda acima de 8 kHz. Experimentei aumentar, com equalização, as freqüências entre 8 kHz e 12 kHz (as quais eu consigo ouvir se as amplifico suficientemente). Para minha surpresa, algumas músicas, como por exemplo "The Captain of Her Heart", ficaram bem diferentes. Um "novo" instrumento (que todo mundo com audição normal consegue ouvir, mas eu não) apareceu, e isso fez a música parecer mais  "rockada", com bem mais batidas, perdendo boa parte da "aura mágica" e do estilo mais "contínuo" que ela parecia ter para mim. Portanto, por causa da minha deficiência auditiva, algumas músicas talvez me pareçam mais agradáveis do que pareceriam se eu passasse a ter audição normal!  Veja mais detalhes abaixo.

  • Minha perda auditiva provavelmente começou quando tive caxumba, aos 7 anos. Infelizmente perdi os exames que fiz quando mais jovem, mas sei que em 1994 eu já era surdo para freqüências acima de 12 kHz, e quase surdo para sons entre 9 e 12 kHz. Provavelmente, desde criança meu cérebro aprendeu a considerar normal que as músicas quase não tivessem informações acima de 8 kHz.
          Porém, no começo de 2003, algo fez minha perda nas freqüências entre 1 e 8 kHz ficar ainda mais intensa. Com esta perda mais intensa meu cérebro não estaria acostumado. O que a parte auditiva do meu cérebro "gostaria" seria de, simplesmente, voltar a receber o tipo de informação auditiva que recebia antes de 2003. Assim, creio que:
    - pessoas que adquiriram sua perda auditiva já na idade adulta necessitariam de uma correção que reflita seu audiograma, ou seja, a sua perda auditiva total;
    - pessoas como eu, que têm uma perda auditiva desde a infância, e que tiveram esta perda auditiva piorada por causa da exposição a sons altos (ou outro fator), talvez necessitassem de uma correção que reflita apenas a parte mais recente da perda auditiva.
    Não seria a toa que, muito embora um profissional ao ver meu audiograma ache que eu preciso de um aumento principalmente na faixa dos 6 kHz, eu acho mais agradável um aumento na faixa dos 3 kHz... 

          Quando tentei aumentar as freqüências acima de 8 kHz, descobri que muitas músicas continham instrumentos que eu jamais havia percebido. Em alguns casos, estes "instrumentos extras" faziam a música mais interessante (por exemplo, algumas do gênero "trance"), mas na maioria das músicas os "instrumentos extras" as deixavam pior! 
          Por exemplo, a música "The Captain of Her Heart", do Double, sempre me pareceu ter 3 componentes básicos: as batidas dos graves, o vocal do cantor e um instrumento que toca continuamente, basicamente nas freqüências médias. Descobri então que a música tinha na verdade 4 componentes básicos - sendo o quarto um instrumento intermitente, fazendo uma "batida" auxiliar, que só era audível para mim quando eu aumentava significativamente as freqüências mais altas. Mas eu não gostei da música "completa" tanto quanto sempre gostei da música "incompleta"! 
          Depois disso, uma noite tentei comparar músicas "com e sem" o aumento acima de 8 kHz, junto com uma amiga que tinha audição normal. Após ouvir algumas músicas, ela percebeu que tipo de som que eu só ouvia com o "aumento acima de 8 kHz". Ela então podia dizer antecipadamente, ouvindo a música normal, em que músicas eu iria perceber muita diferença e em quais eu praticamente não iria...

  • De fato, jamais saberei exatamente o que os outros ouvem. 

Eu simplesmente sou surdo para freqüências entre 12 e 16 kHz, que todo mundo "normal" ouve bem. Não importa que aparelhos auditivos eu compre, que equalizadores eu use, eu posso ajustar a faixa de 2 a 11 kHz, mas a faixa de 12 a 16 kHz está perdida para sempre!

E se você acha que esta faixa de 12 a 16 kHz não é importante, lembre-se que os CD's (que tantas pessoas criticam por não reproduzir "tudo" que nem os antigos vinis) reproduzem muito bem até 20 kHz!  

Experimentei ouvir algumas músicas "completas" e as mesmas músicas sem as freqüências de 10 e 11 kHz... e fez diferença! Se 10 e 11 kHz me fazem falta, me pergunto que falta não fazem 12, 13, 14, 15 e 16 kHz...  E me pergunto se eu ainda ouvia estas freqüências quando eu tinha uns 14 anos de idade, quando ouvir músicas era para mim ainda mais mágico e especial do que quando fiquei mais adulto...

Mais importante que a surdez para as freqüências super altas seria a perda para as freqüências altas. Minha perda em 6 kHz chega a 60 db. Por uma série de fatores, não dá para compensar nem metade desta perda, seja com equalizadores, seja com aparelhos auditivos.

"Filosofando":

  • Na verdade, eu nunca saberei como vocês ouvem, e vocês podem apenas ter uma idéia de como eu ouço... 

E  também nunca saberemos como realmente as outras pessoas enxergam, ou sentem sabores, ou sentem cheiros... enfim, é impossível saber como o outro sente e percebe o mundo ao redor. Se, de repente, tua alma se visse dentro do corpo de outra pessoa, você poderia se ver em um universo totalmente diferente!

  • Casos como o meu comprovam o absurdo que é chegar para alguém e dizer "mas você é saudável...". 

Quando nos queixamos de estarmos meio deprimidos, ou infelizes, etc, é comum alguém de mente mais simples fazer comentários na linha do "... mas você é uma pessoa saudável, etc, etc, etc..." 

Oras, as pessoas aparentemente "saudáveis" aos olhos dos outros podem não ter uma audição normal, podem não ter um paladar normal, etc, etc, isso para não falar de outros problemas de saúde que quem tem não confessa jamais...

  • Para mim, há 3 formas de o mundo ter "magia":

- se apaixonando

- sonhando (sonhos dormindo)

- ouvindo músicas maravilhosas!

A gente não escolhe quando se apaixona. E, dependendo do objeto da paixão, nem sempre isso faz muito bem para a gente...

Quanto aos sonhos, podemos ter sonhos maravilhosos, mas dificilmente temos controle sobre eles, nem sempre nos lembramos bem deles, e não somos exatamente  "nós mesmos" quando estamos sonhando...

            A coisa mais mágica na vida sobre a qual tenho controle, o prazer de ouvir músicas maravilhosas, quase ia sendo perdido para sempre, se eu não tivesse feito experiências mais complexas com equalizadores!

 


Dúvidas que não sei responder


1) Se os outros ouvem bem, por que muitos têm tanta dificuldade para perceber um som distorcido?

Muitas pessoas com audição "normal" parecem ter dificuldade de perceber quando um dos alto-falantes do som de casa, ou do som do carro, está simplesmente pifado ou arrebentado. Como é possível não perceberem? O que diabos elas ouvem então? Não me refiro ao que elas ouvem em termos de ouvidos, mas em termos de como a música é interpretada no cérebro...

* possível explicação: em 20/12/03 fiz uma experiência interessante: fui ao Café Cancun (uma boate de Brasília) com tampões nos ouvidos. Isso porque fui não pela música, mas pela "azaração". Com tampões, eu poderia paquerar sem detonar meus ouvidos. O que aconteceu? A música ficou mais baixa e muito mais abafada, é claro. Mas ainda dava para sentir perfeitamente o ritmo. Dava para dançar normalmente, até mais confortavelmente, pois eu não sentia o som alto. Mas eu percebi muito mais claramente o quanto o som estava distorcido, especialmente os graves das caixas secundárias que ficam embutidas no teto. Ou seja: ao deixar de ouvir os agudos, percebi ainda mais a distorção dos graves. Talvez, portanto, os outros percebam mal um som distorcido porque:

- no caso dos graves, a percepção "normal" dos agudos meio que "mascara" a boa percepção dos graves...

- no caso dos agudos, quem ouve bem tem "reserva" para ouvir um pouco menos. É como você estar num quarto com uma lâmpada de 100W ou com duas lâmpadas: com só uma lâmpada pode até já parecer claro o suficiente, a não ser que você já tenha problemas visuais...

 

2) Deficiência auditiva poderia ser uma fator predisponente ou agravante da depressão?

Uma vez que a deficiência auditiva diminui o prazer musical, e altera a própria interação das pessoas com o mundo, poderia ela ter relação com a depressão, especialmente em pessoas com deficiência auditiva? 

No meu caso, por exemplo, me pergunto: teria sido coincidência que a primeira depressão "clássica" que tive na vida ter ocorrido em março de 2003, pouco tempo depois de eu ter sofrido a perda auditiva mais acentuada? Lembro-me do quão importante foram as músicas em algumas épocas difíceis da minha vida - por exemplo, os últimos semestres do meu curso de Medicina. Lembro-me também de quão importante foram as músicas na minha 1ª crise depressiva mais forte, em janeiro de 2001. Teria sido coincidência que, da primeira vez que não tive as músicas para me ajudar, eu pela primeira vez entrei numa depressão mais profunda e sem energia?

 

Lições a serem tiradas disso tudo:

1) Lembre-se sempre daquilo que todos falam mas que ninguém parece seguir na prática: as pessoas são diferentes. Se você de repente se visse dentro do corpo de alguém, provavelmente se surpreenderia ao ver um mundo totalmente diferente - sua percepção de sons, imagens, cheiros, sabores, e até de temperatura, mudaria completamente! Não se deve pensar que todos sentem o mundo igual, e são nervosos porque querem, ou são deprimidos porque querem, etc...

2) Cuide dos seus ouvidos! Perda visual, hipertensão, colesterol alto, etc, são problemas graves, mas dificilmente serão causados num único dia e em muitas vezes têm como serem revertidos. Já a perda auditiva pode ser causada em um único dia.

A perda auditiva neurossensorial não tem cura e é irreversível. E uma vez causada, um aparelho auditivo, por mais sofisticado que seja, só minora a perda, nunca a corrige completamente. Não se arrisque a perder aquilo que você nunca conseguirá recuperar!

 

Enquanto isso:

  • Acho uma falha inadmissível que na escola não se aprenda sobre noções básicas de cuidados com a saúde.  

  • Creio que as boates e casas noturnas deveriam ser obrigadas por lei a informar, diariamente, qual o nível sonoro a que estão expondo os clientes. Não acho que faça sentido obrigá-las a respeitar um certo limite (afinal, ninguém impede as pessoas de beberem demais, ou de tomar sol em excesso, etc). Bastaria que o cliente, mesmo sem ter um aparelho de medição, pudesse saber que na pista de dança há um nível de 105db (por exemplo), e que os órgãos de saúde não recomendam exposição a este nível por mais que 1 hora. Quem quiser ultrapassar o tempo que o faça, mas sabendo do risco, da mesma forma que sabe do risco ao fumar, ao tomar sol fora de horário, etc.

 


Curiosidades

1) Ouvir Músicas pode ser viciante

Leia o seguinte texto, que está no site http://www.music-cog.ohio-state.edu/

- Describe the effect of the drug Naloxone. Identify its significance in the psychology of music:

     Naloxone is an opiate receptor antagonist. Naloxone interferes with the neurological mechanisms by which we experience pleasure. With a dose of naloxone, things that are normally pleasurable, no longer give pleasure. Naloxone has been shown to reduce the excitement or pleasure associated with music listening. This suggests that listening to music is able to activate the brain's opiate receptors. (Like other forms of pleasure, listening to music may be addictive.)


- What evidence do we have that listening to music releases endorphins?

    Goldstein's experiment showed that injection of an opiate receptor antagonist resulted in decreased ratings of musical pleasure. This suggests that music listening ultimately causes the release of endorphins that (normally) bind with the pleasure receptors.

Comentário meu: já lá pelo ano de 93 eu havia percebido que meu prazer de ouvir músicas era de certa forma um vício e eu era dependente dele... Eu pensava, até então, que minha dependência era mais psicológica do que física... mas talvez não fosse.

2) O prazer não auditivo das baixas freqüências - o prazer das boates 

Achei este outro texto no site no site www.auditory.org/. Não se preocupe em lê-lo todo, a pequena parte em azul é o que achei mais importante.

        O que me chamou a atenção: quando ele fala no prazer que a música alta proporciona via sensações não-auditivas. Música dando prazer através de sensações não auditivas? Mas talvez seja por aí, em algumas  circunstâncias.

        No final de dezembro de 2003, fui à Happy News (uma boate de Brasília) com tampões nos ouvidos. Eu queria curtir o clima de "azaração", mas não queria detonar meus ouvidos com o som altíssimo de lá. Por isso coloquei os tampões (tampões normais, que abafam bastante a música, pois eu ainda não conhecia os tampões Hi-Fi que comento em outra parte do meu site).

        E veja que estranho: ficou gostoso ouvir as músicas mesmo com o som super-abafado pelos tampões de ouvido! Mas era um tipo de prazer bem diferente do que eu sentiria ouvindo músicas em casa (onde os agudos são fundamentais). Era um prazer causado pelas freqüências baixas (graves), pela vibração sonora no corpo... vivendo e aprendendo!

Armed with my B&K 2260 Investigator this intrepid explorer set out to sample some of Manchester's sounds. To my surprise most venues have been extremely helpful and willing for me to take measurements. It seems that I can get into just about any place free of charge. Damm good thing that I took some precautions though, as recommened. For example, in one venue which had PA with a power rating of a mean 20,000 W(!), I measured on one occasion an  LAeq (equivalent continuous level, A-weighting) of 111 dB. The peak of power was at 400 Hz (1/3 octave) 126 dB A weighting, fast response. (This would be about 130 dB on the C weighting). At 111 dB OSHA gives the maximum allowable exposure per 8 hour day at at 26 minutes. ISO recommend 3.25 minutes maximum allowable exposure per 40 hour week!  The predominance of low frequencies, 500 Hz and less, apparently the source of pleasure that loud dance music provides via vibrotactile and other non-auditory sensations, is consistent with damage to low frequency hearing (as well as high frequencies) that I have been finding in a survey of undergraduate students who frequent dance clubs. E.g. in 10 subjects I looked at so far I found the mean loss at 250 was about 12 dB compared with 4 dB at 2 kHz.

3) O prazer não auditivo das altas freqüências (acima de 20 kHz) 

O texto a seguir fala de uma pesquisa sobre o efeito dos sons acima de 20 kHz (que o ouvido humano já não ouve).

Oohashi and his colleagues recorded gamelan to a bandwidth of 60 kHz, and played back the recording to listeners through a speaker system with an extra tweeter for the range above 26 kHz. This tweeter was driven by its own amplifier, and the 26 kHz electronic crossover before the amplifier used steep filters. The experimenters found that the listeners' EEGs and their subjective ratings of the sound quality were affected by whether this "ultra-tweeter" was on or off, even though the listeners explicitly denied that the reproduced sound was affected by the ultra-tweeter, and also denied, when presented with the ultrasonics alone, that any sound at all was being played.

(Fonte: http://www.cco.caltech.edu/~boyk/spectra/spectra.htm)

        Agora eu me pergunto: se as freqüências acima de 20 kHz, mesmo inaudíveis, dão prazer... como fica no caso de uma pessoa como eu, que já não ouve sequer acima de 13 kHz?

Talvez as pessoas com meu tipo de deficiência consigam ainda sentir este "prazer das altas freqüências" (que, aliás, muitos duvidam que exista mesmo), pois tais freqüências seriam sentidas pelo sáculo, um órgão separado da cóclea, embora ligado a ela. Mesmo com a cóclea danificada, o sáculo poderia estar ainda normal...

4) Ajuste em 4 kHz e...

Pessoas com o meu tipo de deficiência auditiva, causada geralmente por excesso de exposição a sons intensos, costumam ter perda maior na faixa de 4 a 6 kHz. A solução, portanto, é usar um equalizador para aumentar estas freqüências. 

O problema é que, para pessoas normais, isso faz parecer que a música está bem mais alta. Ou seja, teus familiares e vizinhos vão achar que você está ouvindo bem mais alto, e podem reclamar, ainda que, em termos de a música como um todo, a altura tenha se alterado pouco... use um decibelímetro e verá!

5) "Altura" versus "intensidade" do som...

O que eu estou chamando de "altura" em quase todo meu site seria, na verdade, "intensidade".

Optei por usar o termos "altura", mesmo não sendo o mais adequado tecnicamente, para deixar o site mais claro e fácil de entender para a maior parte dos meus leitores.

6) O nível sonoro das boates de Brasília.

Comprei um decibelímetro, um aparelho que mede a intensidade sonora em um local. Comprei-o especialmente para ter uma idéia de quão alto é o som em uma boate ou em uma festa. 

Vocês poderiam dizer que numa mesma boate a música não toca na mesma altura todos os dias. É verdade. Mas pelo menos tive uma idéia do volume, e tive uma idéia da proporção entre a altura na pista central e a altura nos cantos da boate - esta parece não variar. 

Tanto no Café Cancun quanto na Happy News, a pista é 10 decibéis mais alta que o canto. Na prática, o dano potencial causado por uma hora na pista central seria equivalente ao dano de ficar quatro horas nos cantos... 

Medi os seguintes valores (escala dbA), em dez/03 e jan/04:

- pista do Café Cancun:

100 db

- mesas do Café Cancun:

90 db

- pista da Happy News:

104 db

- mesas da Happy News:

94 db

- pista da Trend: 

108 db

exposição contínua máxima recomendada a 100 dB = 2 horas

exposição contínua máxima recomendada a 105 dB = 1 hora

exposição contínua máxima recomendada a 110 dB = 30 minutos  

Para você ter uma idéia...

30 db

 uma biblioteca silenciosa

45 db

 limiar da perturbação do sono

60 db

 nível normal da fala (voz)

120 db

 o dano auditivo pode ser imediato

 você não se deve jamais se expor a este nível

145 db

 limiar da dor no ouvido

 (seria só aqui que seus ouvidos começam a doer)

 

  • numa certa noite, medi no Café Cancun, durante a apresentação da banda Satisfaction, 103 dbA na pista, com picos de até 111 dbA.

  • achei interessante a diferença das medidas nas escalas dbA e dbC (a escala dbC dá mais peso às baixas freqüências). Na minha casa, se eu colocar uma música bem alta, meço cerca de 92 dbA. Se mudo a escala para dbC, a medida quase não muda, sobe só uns 2 db. Já em boates, a escala C sempre marca uns 12 a 15 db acima da escala A. Meu aparelho chegou a medir um pico de 124 dbC na boate Trend e inacreditáveis 131 dbC na boate Macadâmia!

  • num baile de formatura, no Clube do Exército, em janeiro de 2004, o nível sonoro em mais da metade do salão estava na faixa de 104 db ou mais. Portanto, boa parte dos familiares e amigos dos formados, inclusive pessoas idosas, ficaram expostas a 104 db por mais de 4 horas (máximo recomendado a este nível: 1 hora!). Perguntei para a pessoa da mesa de som se ele encontrava o volume ideal com a ajuda um aparelho ou se era só "com o ouvido". Ele respondeu com a maior naturalidade que era "de ouvido"... Incrível: uma aparelhagem com mais de 15 equipamentos, que custa seguramente muito mais de dez mil reais, e não há preocupação alguma de gastar menos de mil reais para ter um aparelho que meça a altura do som... que como é ajustado "de ouvido" pode chegar a qualquer nível.


Alguns links interessantes:

- http://www.entreamigos.com.br/ - informações básicas sobre deficiência auditiva

- http://planeta.terra.com.br/educacao/audiolist/biblioteca.htm - uma completíssima relação de links sobre som, áudio, acústica, etc, por Edu Silva.

- http://planeta.terra.com.br/educacao/audiolist/artigos/audicao.html - Cuidados com a Audição

- http://www.earinfo.com/howread1.html - ensina como entender a sua audiometria (site em inglês)

- http://www.digital-recordings.com/publ/pubear.html - Common Misconceptions about Hearing

- http://www.thehearingclinic.com/siEvaluatingHL.html - Evaluating Hearing Loss

- http://www.silcom.com/~aludwig/EARS.htm - Music and the Human Ear

- http://www.music-cog.ohio-state.edu/what_is_music_cognition.html - Music Cognition

- http://www.hearinglossweb.com - sobre o "Crescendo", uma tecnologia de restauração da audição musical.

 

© Augusto C B Areal

Textos próprios registrados no EDA da Biblioteca Nacional

 e protegidos nos termos da Lei 9.610 dos Direitos Autorais

(Versão inicial em 16/12/2003 - última revisão em 12/05/2005)