Eis aqui um texto que há muito tempo eu tinha vontade de divulgar. E afinal, de que vale eu ter feito biodança por tantos anos se eu não tiver a coragem, e a sinceridade comigo mesmo de dizer o que penso? Isso sim é "Vivência de Identidade". ;-)
        E, se dizer o que eu penso vai me "queimar" na biodança, como já me disseram, será que vale a pena eu fazer uma biodança onde tenho que ficar calado?
        Vou ousar. Existem muitos textos na Internet falando sobre "o que é biodança", mas textos com uma visão mais crítica e pessoal sobre ela... bem, talvez esse seja o primeiro.
        Ajude-me, dando-me "feedback" sobre os pontos com os quais você não concorda em absoluto, sobre as partes que não tenham ficado claras, sobre as expressões que eu poderia substituir para não ferir ou magoar desnecessariamente, etc, etc...
        Leia também meu texto "Biodança - algumas perguntas e respostas pessoais", que complementa este.
        Augusto
 
 
Por que a Biodança não "emplacou" de verdade?
 
1) na época em que a "bio" estava no apogeu e podia ter emplacado (1994 a 1996), houve um aumento desenfreado dos preços, levando a:
    - envelhecimento excessivo do grupo (pessoas mais novas tendem a ter mais dificuldades de pagar tanto).
    - os grupos ficaram menores, e portanto mais suscetíveis a ficarem abaixo do tamanho mínimo. Por exemplo: se um grupo tem 25 pessoas no final do ano, o normal é voltarem umas 15 no início do ano seguinte, e o grupo pode voltar a crescer. Já se um grupo tem só metade deste tamanho, ou seja, 12 pessoas no final de ano, corre o risco de voltarem apenas uns 7 ou 8 no ano seguinte, e aí o grupo fica pequeno demais, "morrendo" antes de conseguir voltar a crescer.
 
        Quanto ao aumento de preços, lá pelos idos de 95 chegou-se ao absurdo de se fazer um cartel de preços! Um grande erro...
 
        O que se ganhou com esse cartel hoje? Não seria melhor para uma facilitadora, financeiramente, ter hoje dois grupos com 25 pessoas cada um, pagando, digamos, 60 por mês, a ter um só grupo de 15, pagando cada um 120 por mês? Faltou matemática, e faltou visão de futuro...
 
2) posturas infelizes de algumas facilitadoras:
    - cobrança de férias sem aviso prévio (somente no último mês a pessoa era comunicada que "tinha" que pagar férias). Este era um procedimento de algumas facilitadoras que causou revolta e desistência de alguns alunos;
    - carnês e coisas do gênero retiravam a aura "mágica" da biodança...
 
3) vício em determinados estilos musicais:
    - quando entrei, as músicas eram de estilos os mais variados.
    - hoje em dia, as facilitadoras insistem em se concentrar em músicas estilo "popular". Oras, a questão não é "sair dos padrões"? Não fica mais difícil "sair dos padrões" de comportamento a que nos habituamos ouvindo as mesmíssimas músicas que ouvimos no dia a dia? 
        Creio que acaba havendo a exclusão de alguns que não se identificam com estes estilos musicais.
        Acaba havendo uma homogeneização excessiva do grupo. Há algo errado quando eu vou à festa de fim de ano de um grupo, só toca pagode e alguns outros subgêneros bem específicos de MPB, e todo mundo acha bom. Será isso normal? Numa festa dos meus antigos grupos de biodança, que eram saudavelmente heterogêneos, bem mais estilos musicais seriam demandados, pois as pessoas tinham gostos bem diferentes entre si e assim faziam um grupo mais rico!
 
4) acúmulo crescente de "vampiros" sempre prontos para ir para qualquer grupo bom:
    - há uns "fulaninhos" que logo sabem se um grupo está maior, com energia melhor, com mais garotas jovens e bonitas - e logo vão para lá.
    - isso é algo difícil de se lidar, eu mesmo não teria uma solução para o problema, mas como ele existe, eu o estou listando...
 
5) falta de senso crítico por parte do pessoal da Escola de Biodança
    - sinceramente, parece-me às vezes que é um requisito para entrar na Escola de Biodança que a pessoa tenha pouco senso crítico e seja do tipo para o qual sempre "tudo está lindo, tudo está maravilhoso".    
 
        Parece que todos acham que um belo dia, por passe de mágica, a biodança (ou "Biodanza" como é mais chamada hoje) será reconhecida. Não vêem - ou não querem ver - que os grupos não mais aumentam, que 10 anos atrás a "Bio" (como carinhosamente a chamávamos) tinha muito mais popularidade e "appeal" do que tem hoje...
        Inúmeras das pessoas que conheço jamais sequer ouviram falar de biodança!!!
 
6) paganismo
    - não é raro fazerem algumas cerimônias fazendo referências a "deuses" no plural, outras envolvendo rituais  com velas, etc... coisas que talvez não pareçam naturais a um cristão ou a um ateu/agnóstico.
        Quanto se perde e quanto se ganha com este "paganismo"?
        A maioria das pessoas dos grupos ou são ou monoteístas (católicas, espíritas kardecistas, etc) ou são atéias / agnósticas.
        Por que não evitar referências desnecessárias que possam constranger as convicções religiosas (ou ateístas) dos outros?
 
7) "feudalização" da biodança
    - segundo me foi dito, a estrutura é centralizada e pouco democrática, girando ao redor dos Toro.
 
8) aparente falta de percepção, por parte de algumas facilitadoras, da importância de certas energias individuais
    - para compor a energia e a personalidade do grupo, algumas pessoas eram particularmente importantes. As facilitadoras não percebiam e não se importavam com a saída de, digamos, 3 pessoas importantes (muitas vezes por questões financeiras contornáveis). Essa saída gerava um grupo de energia bem diferente do qual várias outras pessoas acabavam saindo em seguida.
 
9) falta de compromisso por parte dos alunos:
    - alunos que sempre chegam atrasados, que vivem faltando, simplesmente porque não têm compromissos com o processo nem com os colegas;
    - existência de alunos que pensam que a 1ª metade da biodança é uma seção de terapia individual só deles.
 
10) repetições excessivas:
    - se em alguns grupos eu participei das mais incríveis vivências de identidade, afetividade, transcendência, etc, em alguns grupos a biodança parecia se limitar à linha da sexualidade... vivências por demais semelhantes uma às outras...
    - falta de inovação / oxigenação musical... será que se num certo grupo eu participo de 5 vivências daquele tipo de "brincar como criança", é razoável tocar a mesmíssima música em todas as 5 vezes? Pode ser razoável para quem vive faltando (e portanto só fará 2 das 5 vivências), mas para quem é um membro mais fixo, fazer 5 vivências iguais com a mesmíssima música do "Ursinho Pimpão" é demais.
    - aliás, lembro-me havia um(a) certo(a) facilitador(a) que primava por exercícios bem variados, músicas diferentes e variadas... mas esta pessoa nunca aceitou participar do "cartel" de preços... e costumava-se dizer que esta pessoa "não fazia biodança"... Não fazia mesmo? Ou isso foi uma forma de "queimar" quem ousou não seguiu o "cartel" de preços?
 
11) ausência de uma filosofia de "feedback":
    - o defeito mais grave da biodança: está sempre "tudo bom", mesmo que esteja tudo acabando!
    - ninguém pergunta por que a pessoa saiu do grupo, o que a pessoa achou daquele congresso, como poderia ser melhorado aquele workshop, o que achou da músicas, nada.        
    Ninguém quer saber a opinião ou o feedback dos alunos!
 
12) o descuido como marca registrada...
    a) uma vez descobriram que haviam marcado um evento com o Rolando Toro para o mesmo dia do primeiro turno da eleição presidencial. O que fizeram? Remarcaram para outro dia. Que dia? Adivinhe! O dia do segundo turno!!! Só na biodança mesmo!
        E sabe o que aconteceu quando uma colega disse para a facilitadora "mas este é o dia do segundo turno"? Ela admitiu o erro? Claro que não... Disse "mas as pessoas podem ir votar mais cedo". E a aluna disse "mas se é assim, então nem precisava ter remarcado". E a facilitadora nada disse. Fim da discussão. Gente, desculpem a franqueza, mas isso é incompetência demais (na hora de marcar errado pela segunda vez), e é falta de humildade a incapacidade de admitir que se marcar no dia do 2º turno foi um tremendo erro!
 
    b) em 1997, marcaram um Congresso num local e só depois descobriram que as salas não tinham isolamento acústico suficiente para impedir que as músicas de uma vivência interferissem na vivência ao lado!!! Que comissão organizadora é essa que marca um congresso de biodança sem ver se há condições reais de se fazer as vivências no local?
 
    c) entrei na página do site oficial www.biodanza.org em julho de 2003, e vi que a página não era atualizada desde setembro de 2002! A página ainda falava em eventos futuros de 2002, não falava nada do que está ocorrendo em 2003. Sinceramente, acho que um movimento que não consegue dedicar 5 minutos por mês para atualizar um pouquinho o seu site oficial não tem muito futuro...
 
 
Primeira versão: 2001
Última versão: 2005


Leia também o texto "Biodança - algumas perguntas e respostas pessoais"

Leia também o texto "Você sabe que faz biodança quando..."

Voltar à minha página de textos pessoais

joomla statistics