Mundo bom x Mundo mau
Cada vez mais constato a necessidade das pessoas de criarem a ilusão de um "mundo bom", e ai de quem tentar falar que o mundo que elas criaram não é bem assim. Vejam por exemplo o que acontece no caso das eleições: temos um Congresso medíocre, no qual a maioria dos deputados só foi eleita por que os brasileiros votaram muito mal. Porém, as pessoas preferem dizer que os eleitores foram "ingênuos", foram "enganados", ao invés de admitir que aquele Congresso reflete um povo que, no fundo, vota sabendo muito bem o que está fazendo. E vota porque acha que vai se beneficiar elegendo o deputado "x" ou o senador "y", mesmo sabendo que ele não é honesto. No final, é mais fácil criar uma separação mental entre o Brasil "puro" - de brasileiros em sua grande maioria "esforçados" e "honestos", - e o Congresso, cheio de políticos "pilantras", "que nada têm a ver" com aqueles que o elegeram... É mais fácil fazer essa separação do que admitir que o Congresso reflete o país - e vice-versa. Outro caso: o mundo dos relacionamentos virtuais. Nos sites de namoro, nós nos deparamos com a triste realidade das pessoas - que mentem, fingem, se importam apenas com aparência física, somem sem dar satisfações, etc. Mas ao invés de admitirmos que muitas das pessoas ao nosso redor (ou nós mesmos) agiriam dessa mesma forma se estivessem lá, é mais fácil dizermos que "no mundo virtual só tem gente louca" ou "só tem gente falsa", ou algo nessa linha. Incapazes de aceitar a ideia de que o seu próprio mundo real no fundo tenha muita gente louca, ou falsa, é mais fácil criar uma separação mental dos dois mundos, o mundo real, onde tudo está sob controle, e o mundo virtual, cheio de problemas, mas que eu posso "fechar numa redoma" e colocar psicologicamente bem longe de mim. Um terceiro caso? O mundo dos grupos de biodança, nos anos 90. Na sua tentativa mental de criar "mundos bons" (o Brasil, as pessoas de fora da internet, etc.) separados de "mundos ruins" (o Congresso, as pessoas dos sites de relacionamento, etc.) as pessoas tendiam também, desesperadamente, a ver o mundo da biodança como um mundo 100%, ou pelo menos 95% bom. Um mundo onde não havia pessoas mentirosas, ou invejosas, ou ladras, ou caloteiras, etc. Elas precisavam, psicologicamente, de um mundo assim. Quando as pessoas, inevitavelmente, descobriam que na biodança havia pessoas falhas, como em qualquer outro lugar, se sentiam de certa forma traídas, ou enganadas, como um criança nas primeiras vezes que descobre que sua mãe e seu pai também mentem e também fazem coisas erradas... Havia um certo comportamento de "se não é perfeito eu não quero mais..." Mais recentemente, vejo a mesmíssima coisa acontecer em comunidades de pessoas formadas via Orkut. Este meu texto foi escrito (até o parágrafo anterior) originalmente em 2003, mas parece ter sido escrito agora em 2010, tal a semelhança com diversas situações recentes que presenciei. No começo, a empolgação com um grupo que muitos descrevem como "maravilhoso" ou "perfeito". Com o passar do tempo, as pessoas vão descobrindo que é um grupo não tão perfeito, é um grupo de pessoas normais e humanas, com os defeitos que os seres humanos têm. Descobrem que no grupo "perfeito" existem também conflitos, fofocas, omissões, etc. E é aí que muitos, ao invés de ficarem e usufruírem da parte boa (como sempre fizeram em relação aos outros aspectos de suas vidas), acham mais fácil se afastarem, e irem novamente buscar uma ilusória Perfeição em algum outro grupo ou lugar...
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