Músicas: um mundo que eu não tenho medo de perder...

 

De vez em quando eu me perguntava por que eu consigo me envolver tanto, emocionalmente, ao ouvir algumas músicas.

Pois se há uma hora na qual eu realmente consigo "viver o momento presente", é quando ouço músicas!

Pensando sobre isso, eu percebi que, ao longo da minha vida, fui perdendo a capacidade de me envolver com alguns tipos de prazeres e emoções - justamente aqueles que eu poderia perder de repente - e mantendo a capacidade de me envolver completamente com outros tipos de emoções - justamente aquelas que eu não perderia de uma hora para outra, ou seja, aquelas que não me "trairiam"!

Assim, separei as coisas que eu mais gostava em: (depois explicarei cada uma melhor)

1) Coisas que terminam sem aviso ou me "traem":

    - grupos de biodança

    - amores, relacionamentos virtuais, etc.

    - meus projetos e sonhos envolvendo coisas materiais (ter o LD do filme Metropolis, ter todas as revistas da série Planeta dos Macacos, ter postais com fotos minhas, etc.)

    - ler livros de ficção científica (livros com uma história só)

    - ler histórias em quadrinhos "seriadas"

    - meus pombos

    - ouvir música em algumas boates, nas quais a uma música linda pode se seguir uma música de estilo totalmente diferente...

2) Ambientes que curto de verdade - aqueles nos quais posso confiar:

    - filmes de cinema

    - ler livros de ficção científica (livros com uma história só)

    - histórias em quadrinhos do tipo "elseworlds", com finais definitivos

    - boates onde a música toca em blocos, divididos por estilos

    - OUVIR MÚSICAS

 

Vamos explicar melhor?

 

1) Entre as emoções que "terminam sem aviso":

    - grupos de biodança: antes eu me envolvia, me empolgava... até perceber que todos eram efêmeros, que todos acabavam mais cedo ou mais tarde, às vezes rápido demais...

      - amores, relacionamentos virtuais, etc. - acho que nem precisa comentar muito. É a maior roubada se envolver com uma conhecida virtual, que quando você conhece pessoalmente pode ser totalmente diferente do que você imaginou, ou pode simplesmente não querer mais te ver porque não gostou de você...

      - meus projetos e sonhos envolvendo coisas materiais (ter o Laserdisc do filme Metropolis, ter todas as revistas em quadrinhos do Planeta dos Macacos,  ter postais com fotos minhas, etc.). Não vou explicar em detalhes, mas meus projetos "materiais" sempre foram decepcionantes quando consegui colocar a mão neles. Meus postais, por exemplo, com uma única exceção, sempre ficaram bem mais feios e apagados que as fotos originais...

      - ler livros de ficção científica (livros com uma história única, não de contos). Muitas vezes eu tinha que chegar à metade para ver que o livro era ruim, ou chegar ao final para ver que não havia final, ou era um final ruim...

      - ler histórias em quadrinhos "seriadas" (aquelas em que a história é "contínua" ao longo de dezenas de revistas). Cansei de ver os heróis sempre se estrepando, e os vilões sempre se dando bem, sempre voltando (porque não podem matar os vilões mais importantes, senão não haverá mais histórias). É frustrante saber que a filha do comiss. Gordon fica paralítica, a namorada do comissário Gordon é morta, mas o Coringa mesmo sempre volta, nunca se dá mal... Da mesma forma, Lex Luthor nunca é derrotado para sempre... nunca nada fica bom de verdade, sempre há tragédias e mais tragédias...

      - meus pombos... não foi uma boa opção minha me apegar a animais mais frágeis quanto pombos, que vivem sumindo, sendo comidos por gatos, etc. Se você tem um cachorro, você tem ótimas chances de ter este cachorro até a velhice dele... Você verá no máximo uns poucos cachorros teus morrerem ao longo da tua vida... mas eu já vi dezenas dos meus pombos favoritos sumirem, morrerem doentes, serem mortos por gatos, etc...

      - ouvir música em algumas boates, nas quais a uma música linda pode se seguir uma música de estilo totalmente diferente...  Uma hora toca aquela música maravilhosa, eu "viajo" e logo em seguida entra uma música horrível que não tem nada a ver... tipo um pagode após uma trance... isso é extremamente frustrante emocionalmente... é como estar fazendo amor e de repente, de um segundo pro outro, a outra pessoa parar, levantar e dizer "vamos ver TV!"...

 

2) Ambientes que curto de verdade - aqueles nos quais posso confiar:

    - filmes de cinema

Eu tenho como checar antes se o filme é bom (www.imdb.com ou então opiniões de amigos) e checar se o final é bom. Veja bem, eu faço questão de ir sem saber o final, mas evito filmes em que todos dizem que o final é muito triste ou muito frustrante... assim, rarissimamente tenho grandes decepções no cinema... no máximo uma vez a cada 50 filmes e olhe lá...

      - ler livros de ficção científica (contos curtos)

Nestes não corro o risco de ficar 3 horas lendo para me dar mal só no final. Num livro de contos, sempre ao menos alguns dos contos são bons. Se leio um e não gosto, perdi apenas alguns minutos nele, e logo passo para o outro conto...

      - histórias em quadrinhos do tipo "elseworlds”, com finais definitivos

Estas histórias se passam fora da cronologia das histórias normais. Nelas, pode haver um final bom definitivo, os vilões podem morrer ou ser vencidos em definitivo, etc.

      - boates onde a música toca em blocos, divididos por estilos musicais

Em boates assim, eu posso me envolver com as músicas... no Café Cancún, por exemplo, eu me envolvia, pois tocavam muitas músicas lindas em sequência, e eu sabia que o estilo só mudava depois das 2h da manhã... até este horário eu podia me envolver sem medo de grandes surpresas...

      - OUVIR MÚSICAS !!!

 

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Obs: tem gente que quando eu mando este tipo de texto parece não entender nada do que eu digo. Portanto, quero deixar bem claro: eu NÃO fiz conscientemente uma escolha por não me envolver nas emoções do grupo "1". Aliás, até a ideia do texto acima me ocorrer, eu jamais sequer classifiquei as emoções em grupos...

O que ocorreu é que eu fiquei curioso de saber por que "viver o momento presente" era tão fácil para mim em algumas coisas, e tão difícil para mim em outras... 

E, somente agora, há umas duas semanas, me veio a ideia que talvez explicasse isso... e eu coloquei essa ideia no papel... 

Que tal?

 

© Augusto C. B. Areal

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