Certa vez, eu falava para uma conhecida da biodança sobre os sonhos que eu
tinha dormindo, e dizia o quanto eles eram maravilhosos e agradáveis. Ela
ficou preocupada, e me disse algo como "ter cuidado para não trocar a vida
real pelos sonhos"...
E não fui a última pessoa a
me dizer algo nesta linha. Bem...
1) Acho
que boa parte das pessoas já trocou a "vida real" por um mundo imaginário,
só que vivem este mundo imaginário o tempo todo, acordadas mesmo... ;-)
Conseguem bloquear a
percepção da realidade a tal ponto que nem precisam dormir para viver um
mundo quase "perfeito".
Você certamente conhece
pessoas assim, não?
Gostaria até de ser como
elas (seria mais feliz) mas não consigo. E qual é o problema de eu
valorizar os mundos dos meus sonhos?
2) Aliás, o que existe de
"real" em boa parte das coisas emocionais da "vida real"?
- quão "real" é ver uma
novela, ou ver um filme no cinema?
- quão
"real" é ouvir uma música??
- quão
"real" é ver um jogo de futebol???
-
quão "real" é ler um bom livro????
Pense bem, as
atividades acima são assim tão mais reais ou concretas e palpáveis, depois
que você as vivenciou, do que um sonho que você teve?
E em que as
atividades acima são "reais" para quem não as sente? Que "realidade" há
em ouvir uma boa música, para quem é surdo? Que "realidade" existe em um bom romance,
para quem não gosta de ler? Da mesma forma, que realidade pode haver num longo, intenso e
gostoso sonho, para quem não sonha?
3)
O que tenho observado é justamente que alguém
que "implica"
com meus sonhos, tentando desvalorizá-los ou desqualificá-los, é
sempre alguém que ou não lembra dos próprios sonhos, ou só lembra de
trechos bem curtos de sonhos ruins e/ou comuns. Pergunto-me se
a pessoa não se sente incomodada ao ver que eu (e outras pessoas)
vivenciamos prazeres que parecem estar além do
alcance dela. Tal como a raposa da fábula: as uvas
que estão
fora do alcance dela são sempre "uvas verdes"... ;-)
Uma das mais interessantes
experiências que já fiz na vida foi começar a anotar TODOS os meus sonhos,
o que passei a fazer a partir de começo de 2003.
Desde 1982, quando eu tinha
16 anos de idade, eu anotava meus sonhos mais importantes. Mas SÓ os mais
importantes. Embora eu não raro me lembrasse de 3 a 5 sonhos na hora que
EU acordava, eu na prática não anotava nem 1/10 destes sonhos.
Pois bem: em 2003 anotei uns
145 sonhos diferentes; agora em 2008 já anotei quase MIL sonhos
diferentes!
E quando leio estes sonhos
todos... a sensação é incrível!
Vejo que nos sonhos, nos
últimos meses, vivi tantas aventuras, tantas emoções intensas... tantos
mundos fantásticos, em tantas épocas diferentes...
E ao mesmo tempo, quando vejo
que no mesmo período, no mundo real, pouco vivi de interessante e
emocionalmente intenso de fato...
Vivo tanto (sonhando) e vivo
tão pouco (acordado), e isso ao mesmo tempo!
E detalhe: a intensidade da
minha vida nos sonhos NADA tem a ver com a intensidade da minha vida
acordado. Em algumas épocas em que passo meses sem quase lembrar de
sonhos, ou só lembrando de sonhos comuns, a vida continua sem graça do
mesmo jeito. Os sonhos não são os culpados...
E outra coisa que vejo, e que me fascina, é que estou vivendo em 3
cronologias totalmente diferentes:
-
uma, a "real", aquela em que, por convenção, 1 ano é 1
ano...
-
outra, a dos filmes de cinema. Para mim é surpreendente, às vezes, ver
que tal filme, que parece que assisti há apenas 2 anos, na verdade
assisti há 8 anos... O mundo do "Augusto" no cinema" passa
muito mais devagar... o "há 1 ano" parece "há 1 mês"...
-
a terceira, a dos sonhos. Esta passa absurdamente rápido. É o contrário
do cinema. Sonhos que tive, na verdade, há 2 meses parece que tive,
emocionalmente, há 1 ano. Sonhos que tive há 1 ano parece que tive há
muitos anos...
* Na
verdade, a rigor, a "cronologia do meu eu acordado" tb
poderia ser dividida em 2 ou 3... mas isso seria tema para outro texto...
Sonhos x Realidade (3)
Não é raro, como eu já contei para muitos de vocês, eu sentir uma
sensação de felicidade intensa durante os meus sonhos...
Mas foi só há alguns meses que, durante os próprios sonhos, eu comecei
a me perguntar porque não me sentia assim no "mundo real".
Parecia tão fácil me sentir tão feliz...
E, de algumas semanas para cá, comecei a ter algumas possíveis
respostas!
Duas hipóteses num primeiro momento:
1ª
hipótese:
Nos sonhos, uma parte do meu cérebro (que deveria funcionar quando
estou acordado, mas não está funcionando, volta a funcionar). Parece que
em alguns sonhos estar feliz, estar me sentindo muito bem é algo tão
natural, tão inevitável quanto estar me sentindo mal no auge de uma
crise depressiva.
Na verdade, a sensação é praticamente de uma crise depressiva
invertida... uma felicidade que permeia tudo, da mesma forma que a
depressão é uma tristeza que me permeia tudo...
2ª hipótese:
Uma vez já disse que a para
mim, estar deprimido significa, entre outras coisas, eu me sentir
extremamente SÓ. Pois bem, nos sonhos em que me sinto muito feliz, eu
nunca estou só de fato. Posso até estar só no momento, mas
"sei" que estou num mundo onde tenho amigos, família, etc. E
o que é mais importante: tenho certeza da PERMANÊNCIA deles.
No "mundo real"
cada vez mais passei a ter uma sensação de que "tudo que é bom
logo termina"... relações amorosas, grupos médios ou grandes de
amigos, e até mesmo o ambiente de trabalho ou as músicas legais da
boate do final de semana, tudo é tão efêmero... Nos sonhos não é.
Meus eventuais pesadelos já
começam como pesadelos. Meus sonhos bons são bons até o
final... nos meus sonhos nunca perco amigos, amores, grupos... Jamais
meus sonhos me "traem"... ao contrário da
"realidade"!
Se me permitem a
comparação, sou como uma criança vivendo em dois mundos... num, ela
morre de medo que seus pais a abandonem, pois já a abandonaram muitas
vezes. No outro mundo, ela se sente tranqüila, pois está com seus pais
e neste mundo eles nunca a abandonaram. Nos pais deste mundo ela
confia...
E não adianta dizerem para a
criança, no mundo real, "tenha fé", "teus pais não
vão te abandonar", etc. Não adianta porque o medo dela se baseia
em fatos. E mesmo que a convençamos, mesmo que ela faça terapia, de
que adianta se logo os pais a abandonam de novo?
Para se curar, ela precisa de
pais (ou tios, irmãos, sei lá) nos quais ela veja que PODE
confiar no mundo real. E mesmo que uma hora eles apareçam, a
cura leva TEMPO...
© Augusto C. B. Areal
Todos
os meus textos estão registrados no E.D.A. da Biblioteca Nacional
e
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(Primeira versão:
maio de 2004)